Vem aí a carne cultivada em laboratório

Além de boa para o planeta, um número significativo de pessoas estariam dispostas a prová-la, sugerem pesquisas

 

Antigamente, esse assunto se restringia às fantasias de ficção científica e às previsões futuristas: um dia, dizia-se, a humanidade descobriria como separar a produção de carne da criação de gado e simplesmente passaria a cultivar a carne, sem a necessidade dos enormes recursos exigidos para se criar animais de fazenda.

Já em 1894, o famoso químico francês Pierre-Eugène-Marcellin Berthelot afirmava que, em 2000, os humanos comeriam carne cultivada em laboratório em vez daquela proveniente em animais vivos. Winston Churchill fez uma previsão semelhante em 1931, e a ideia se tornou ainda mais popular quando o Comandante Riker revelou a um alienígena num episódio do seriado Star Trek: A nova geração que a carne consumida pelos humanos a bordo da nave USS Enterprise foi cultivada, não abatida.

Hoje, tais sonhos de ficção científica estão começando a se tornar fatos científicos. Na verdade, foi a NASA quem abriu o caminho, financiando 20 anos atrás pesquisas bem sucedidas que avaliaram se astronautas que passassem longos períodos no espaço poderiam cultivar carne – uma vez que, é claro, não poderiam levar uma Arca de Noé junto com eles para o espaço. Mas acontece que, enquanto o turismo cósmico de longa distância ainda vai levar um bom tempo para acontecer, a tecnologia para criar “carne limpa” já é necessária aqui na Terra, muito mais do que no espaço.

Um punhado de start-ups estão pegando tecnologias até então restritas a área médica e aplicando-as no cultivo de produtos agrícolas de base animal como carne, leite, ovos e couro. Uma vez que estes alimentos requerem muito menos recursos para serem produzidos do que a criação de animais inteiros, o campo emergente da agricultura celular poderia fazer pelo nosso sistema atual de pecuária industrial o que a energia limpa está começando a fazer pelos combustíveis fósseis.

E a comparação é adequada. De acordo com as Nações Unidas, a criação de animais para alimentação emite mais gás estufa do que todas as formas de transporte juntas. O impacto climático da pecuária é surpreendente, assim como os outros problemas ambientais associados a ele. “A realidade é que são necessárias quantidades enormes de terra, água, fertilizante, combustível e outros recursos para produzir carne”, diz a organização global de caridade Oxfam, “significativamente mais do que o necessário para cultivar outros tipos de alimentos nutritivos e deliciosos.”

Então, como essas empresas cultivam a carne limpa? Muito resumidamente, fazem uma minúscula biópsia de músculo esquelético (o tipo de carne que comemos hoje), isolam algumas células satélites – precursoras do músculo esquelético – e começam a cultivá-las. Sob condições que se aproximam do que acontece dentro do corpo do animal, as células começam a se dividir, e com o poder do crescimento exponencial, logo se tem um músculo real, cultivado a partir das mesmas células que fariam os músculos crescerem no animal. (O processo de cultivo de certos produtos líquidos derivados de animais, como leite e clara de ovo, é bastante diferente e muito mais fácil.) Até agora, essas empresas de carnes limpas estão produzindo apenas carne moída – cachorros-quentes, hambúrgueres, nuggets de frango etc -, mas esperam começar a comercializar seus produtos dentro de alguns anos, e não décadas.

Já tendo comido bife, peixe, pato, fígado, iogurte e outros produtos limpos dessas empresas, posse atestar que sim, o gosto é ótimo e suspeito que muitos – se não todos – os consumidores também estarão ansiosos para prová-los assim que puderem. Afinal, além de serem produzidas de forma mais sustentável e humanizada, essas carnes também terão muito menos problemas de segurança alimentar, pois estão livres dos patógenos intestinais como o E. coli, atual praga na produção de carne.

De certa forma, esses empreendedores estão nos entregando o que o Uma Valeti, CEO da start-up de carne limpa Memphis Meats, chama de “segunda domesticação”. Na primeira domesticação, há milhares de anos, os seres humanos começaram a criar animais e plantar sementes seletivamente, exercendo mais controle sobre como obtínhamos alimento. Hoje, a empresa de Valeti – na qual o gigante agrícola Cargill já investiu – está levando esse controle a nível celular. Enquanto nossos antepassados domesticavam animais selvagens como gado, a Memphis Meats e outras empresas agora estão começando a domesticar as células desses animais. E a partir de uma única célula de uma vaca, seria possível alimentar uma aldeia inteira, oferecendo esperanças reais de que podemos saciar a demanda da humanidade por carne sem destruir nosso planeta no processo.

Sim, já temos carnes feitas à base de plantas cujo sabor e textura estão melhorando a cada ano. No entanto, assim como o problema dos combustíveis fósseis é tão grave que precisamos de múltiplas alternativas (energia eólica, solar, geotérmica, entre outras), o problema da agricultura industrial também é tão grave que precisamos de mais de uma solução. As carnes à base de plantas são fantásticas, assim como simplesmente ter uma dieta à base de plantas. Contudo, a carne limpa é outra alternativa promissora para produção de animais a qual merece nosso apoio.

A história da agricultura tem envolvido, em larga medida, a produção de mais alimentos com menos recursos. Hoje, a agricultura celular está nos oferecendo a capacidade de fazer isso enquanto diminuimos nossa pegada ambiental no planeta usando ferramentas que, no passado, eram apenas mera ficção científica.

Talvez isso tenha sido melhor colocado por Drew Endy, biólogo sintético da Universidade de Stanford, que diz isso sobre esses tipos de tecnologia: “Podemos transitar de viver da Terra para viver com a Terra.”

Paul Shapiro

Fonte: http://www2.uol.com.br/sciam/noticias/vem_ai_a_carne_cultivada_em_laboratorio.html

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